Por Edison Barbieri
Professor Dr. Edison Barbieri. Instituto de Pesca-Governo do Esta do de São Paulo.
Quando pensamos em poluição dos rios, imagens de esgoto, lixo plástico e resíduos industriais vêm imediatamente à mente. Mas há um tipo de contaminação silenciosa, invisível a olho nu e cada vez mais preocupante para a ciência: a poluição farmacêutica. Antibióticos, hormônios e medicamentos psiquiátricos estão sendo encontrados com frequência em rios e lagos ao redor do mundo, inclusive na Europa, e seus efeitos vão muito além do que se imaginava.
Esses compostos, chamados de ingredientes farmacêuticos ativos, chegam aos ambientes aquáticos principalmente pela excreção humana e animal, pelo descarte inadequado de medicamentos e pela incapacidade das estações de tratamento de esgoto de removê-los completamente. Mesmo detectados em quantidades ínfimas, da ordem de bilionésimos de grama, esses compostos mantêm sua atividade biológica e são capazes de provocar interferências profundas nos organismos e nos processos ecológicos dos ambientes aquáticos.

De casa para o rio
Grande parte dos medicamentos consumidos diariamente não é totalmente metabolizada pelo organismo. O que sobra segue pelo esgoto doméstico até estações de tratamento que, em sua maioria, foram projetadas para remover matéria orgânica e microrganismos, não moléculas farmacêuticas complexas. O resultado é previsível: uma fração significativa desses compostos passa intacta pelos sistemas de tratamento e acaba nos rios.
A esse fluxo somam-se as descargas industriais da indústria farmacêutica e o uso intensivo de antibióticos e hormônios na produção animal. O problema não é apenas a quantidade, mas a persistência. Muitos desses compostos resistem à degradação química e biológica, permanecendo por longos períodos no ambiente e expondo continuamente peixes, invertebrados e microrganismos.

Antibióticos: quando o rio vira laboratório evolutivo.
Entre os contaminantes que mais preocupam os pesquisadores estão os antibióticos. Estimativas globais apontam que cerca de 8.500 toneladas de medicamentos de uso humano chegam todos os anos a rios e cursos d’água — o equivalente a quase um terço de tudo o que é consumido no planeta. Os números fazem parte de um estudo liderado pela cientista brasileira Heloisa Ehalt Macedo, da Universidade McGill, no Canadá, que analisou padrões globais de consumo desses medicamentos e validou as projeções com amostras de esgoto coletadas em 877 locais ao redor do mundo.
Os resultados desenham um cenário alarmante, diretamente associado ao avanço da resistência antimicrobiana. “A presença de antibióticos em águas superficiais representa riscos aos ecossistemas aquáticos e à saúde humana, devido à sua toxicidade e ao estimulo ao surgimento de bactérias resistentes”, afirmam os autores do estudo, publicado na revista PNAS Nexus, da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos.
Mesmo em doses baixas, esses medicamentos exercem uma pressão seletiva poderosa sobre bactérias ambientais. O efeito é semelhante ao que ocorre em hospitais, mas em escala ecológica: sobrevivem aquelas bactérias que carregam genes de resistência antimicrobiana, capazes de neutralizar o efeito dos antibióticos. Esses genes podem ser transferi dos entre microrganismos, transformando rios urbanos em verdadeiros reservatórios ambientais de resistência.
A consequência extrapola o meio ambiente. A resistência antimicrobiana é considerada pela Organização Mundial da Saúde uma das maiores ameaças à saúde global neste século, e os ambientes aquáticos desempenham um papel muito mais ativo nesse processo do que se supunha até pouco tempo atrás.
Hormônios que mudam o sexo dos peixes
Outro grupo de compostos com efeitos alarmantes são os hormônios sintéticos, especialmente aqueles usados em anticoncepcionais. Substâncias como o 17α-etinilestradiol, mesmo em concentrações ínfimas, atuam como disruptores endócrinos.
Diversos estudos já documentaram a feminização de peixes machos expostos a esses hormônios: produção de proteínas picas de fêmeas, alterações na proporção entre machos e fêmeas e redução da fertilidade. Em alguns casos, populações inteiras passam a apresentar dificuldade de reprodução, o que pode levar a declínios populacionais silenciosos e difíceis de reverter.
Esses impactos não se limitam aos peixes. Anfíbios e outros organismos aquáticos também sofrem alterações no desenvolvimento e na reprodução, comprometendo o equilíbrio ecológico de rios e lagos.
Ansiolíticos e antidepressivos na água
Medicamentos psiquiátricos, como antidepressivos e anticonvulsivantes, também estão cada vez mais presentes nos ambientes aquáticos. Substâncias como fluoxetina e carbamazepina foram detectadas em rios de diferentes continentes.
Embora desenvolvidos para agir no sistema nervoso humano, esses compostos afetam também o comportamento de peixes e invertebrados. Animais expostos podem nadar menos, reagir de forma inadequada à presença de predadores e apresentar mudanças no comportamento reprodutivo. Em longo prazo, esses efeitos sutis reduzem a sobrevivência dos indivíduos e a viabilidade das populações.

O microbioma em risco
A poluição farmacêutica produz efeitos que vão além dos organismos aquáticos macroscópicos, afetando de maneira profunda o microbioma aquático — o conjunto altamente diverso de microrganismos associa dos à coluna d’água, aos sedimentos e aos tecidos dos próprios organismos. A exposição crônica a fármacos, particularmente aos antibióticos, induz desequilíbrios na estrutura e na funcionalidade dessas comunidades microbianas, ao reduzir ou eliminar populações bacterianas benéficas, essenciais para processos ecos sistêmicos e fisiológicos críticos, tais como a digestão, a regulação da resposta imune e a ciclagem biogeoquímica de nutrientes.
Essas mudanças podem tornar organismos aquáticos mais suscetíveis a doenças e alterar ciclos biogeoquímicos fundamentais, com efeitos em cascata sobre todo o ecossistema.
O que mostram os dados
Pesquisas ao redor do mundo já identificaram concentrações preocupantes de fármacos em rios e lagos. Anbióticos como ciprofloxacina e sulfametoxazol, hormônios contraceptivos e psicofármacos como fluoxetina aparecem regularmente em análises ambientais. Em muitos casos, os níveis detectados são suficientes para causar efeitos comporta mentais, reprodutivos e microbiológicos.
O problema é que esses efeitos raramente são considerados nas normas ambientais. Para vários desses compostos, simplesmente não existem limites regulatórios, apesar das evidências científicas acumuladas.
Uma ameaça que volta pela torneira
A presença continua de resíduos farmacêuticos na água não é apenas uma questão ambiental. Ela representa um risco direto à saúde humana, seja pela exposição indireta via água potável, seja pela aceleração da resistência antimicrobiana. Trata-se de um problema pico do século XXI: difuso, global e profundamente conectado aos nossos padrões de consumo.
Muito além dos hospitais
A ideia de que a resistência antimicrobiana nasce apenas em ambientes hospitalares já não se sustenta. Rios urbanos funcionam como grandes reatores evolutivos, onde bactérias são continuamente expostas a antibióticos em baixas doses, favorecendo a seleção dos mais resistentes. Ignorar esse processo é um erro estratégico grave das políticas públicas de saúde e meio ambiente
O que precisa ser feito
Enfrentar a poluição farmacêutica exige uma resposta integrada e urgente, que vá muito além do debate técnico restrito aos laboratórios. É fundamental investir na modernização das estações de tratamento de esgoto, incorporando tecnologias capazes de remover resíduos farmacêuticos, além de estabelecer políticas públicas eficazes para o descarte correto de medicamentos, hoje ainda amplamente negligenciado. O fortalecimento do monitoramento ambiental contínuo e a aproximação entre áreas tradicionalmente separadas — como ecotoxicologia, micro biologia ambiental e saúde pública — também são passos essenciais para compreender e mitigar o problema em toda a sua complexidade.
Mas a solução não depende apenas de governos e instituições. Cada um de nós tem um papel direto nesse processo: evitar o descarte de medicamentos no vaso sanitário ou no lixo comum, utilizar pontos de coleta apropriados, não consumir antibióticos sem prescrição médica e apoiar iniciativas que ampliem a educação ambiental e sanitária. Pequenas decisões cotidianas, quando somadas, reduzem significativamente a carga de fármacos que chega aos rios.

Os dados científicos são claros: mesmo em quantidades minúsculas, medicamentos alteram a vida aquática, afetam cadeias ecológicas inteiras e alimentam uma crise global de resistência antimicrobiana. Tratar esses impactos como “ecologicamente irrelevantes” significa ignorar um dos sinais mais evidentes de que a relação entre sociedade, tecnologia e natureza precisa ser urgentemente repensada, sob pena de com prometer tanto a saúde dos ecossistemas quanto a nossa própria.






